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Memórias soltas

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  Faz por estes dias trinta anos que entrei na Faculdade. Vinte anos. Por um lado, parece que foi ontem. Por outro, já foi há tanto tempo. Lembro me do meu pai, ao fundo daquela calçada, em Coimbra, que me levava à Faculdade, dizer me no dia que me deixou (sozinhos os dois): Filha, se tudo correr bem, não voltas mais para casa. Não tenhas medo. Eu vou ficar muito orgulhoso se isso acontecer. Naquele dia, não consegui interpretar tudo o que estava ali. Nem tão pouco quereria ouvir aquilo. Também sei que se a minha mãe estivesse lá, teria revirado os olhos. Todos queríamos o voo, mas sem sair do ninho. O meu pai sempre me disse as coisas certas no momento certo. Tenho várias passagens destas que vão ecoar cá dentro para o resto da vida. Soube mais tarde, tudo o que estava guardado naquilo que ele me disse. Repito o, algumas vezes, não aos adolescentes que entram, mas aos pais que têm que deixar ir. Estudar fora, sair de casa é talvez uma licenciatura a mais que se tira. E...

CAMINHOS

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  Ao longo da vida vamos enchendo a sacola de pedras, umas afiadas, outras lisas, algumas mais leves, outras tantas bem pesadas. A sacola vai ficando tão pesada quanto o nosso corpo, o cansaço avoluma-se, a alegria da caminhada esvai-se, pouco a pouco, vamos passo a passo, curvados, com dores no corpo e na alma. O caminho faz-se caminhando, apesar do peso que carregamos, apesar da negridão que nos envolve, o caminho faz-se em busca de luz. E… um dia, de repente, ganhamos coragem para tirar uma das pedras mais pesadas e cutilantes. A sacola ficou mais leve, bem mais leve. As nuvens afastaram-se, o sol brilha, a esperança de dias mais felizes regressou. O corpo ganha forças, endireita-se, o coração sorri, os olhos brilham. Ainda temos pedras na sacola, algumas sairão com o tempo, com vontade de atirá-las para bem longe. Outras ficarão. Têm de ficar, são a prova do que fomos e do que somos agora. A caminhada faz-se caminhando, em longos percursos dolorosos e dilacerantes, é ce...

MEMÓRIAS SOLTAS

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  Nessa altura de jovem esbelta, percorria as ruas de Lagos e sentia muita liberdade ao percorrê-las a pé ou de bicicleta. Ruas limpas de casas caiadas de branco com janelas debruadas a amarelo ou azul e com grandes açoteias. Lembro-me dos dias de verão, intermináveis, nesse tempo, em que tudo vinha longe e de esperar pela manhã madrugadora para ir à doca ao peixe. Atravessava a pequena cidade, de canastra na mão, senhora da minha meninice e do recado que a minha mãe me mandava fazer. Quando chegava ao meu destino dizia Bom dia, vim buscar o peixe, e uma senhora pequenina com um avental maior do que ela, fazia – me entrar numa embarcação, também pequena, onde tudo rugia, pintada também de branco e azul com que a senhora me enchia a canasta com o peixe recomendado. Pronto, agora tem cuidado, não deixes cair a canasta, dizia-me ela tapando o peixe com uma linda toalha de linho, também ela branca e azul. Eu dizia que sim com a cabeça, e tomava o caminho de regresso a casa, que tinha a...

Porque ...... Sim

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  Depois de duas semanas a catalogar os defeitos, a perfeição pode ser cansativa… Sim , a perfeição supera os defeitos. Até tenho medo de perguntar, até onde vai isto? Ver a vida a encantar-nos Quando te conheci só queria passar o resto da minha vida a teu lado. Contar histórias do presente e do futuro, não esquecendo o passado. Lembro-me que aprendi a ler muito cedo, provavelmente, aí pelos 5, 6 anos. A curiosidade pela leitura era intensa, tal como intenso era o cuidado da minha mãe. Carinhosa, preocupada, atenta a tudo e a todos.   Livros, livros e mais livros de todas as formas e feitios estavam omnipresentes. Lá ia eu de balde na mão em direção à Meia Praia. Sim, a praia não era meia, era longa de areias brancas e fina. Naquela tarde, a caminho para a praia, que nada tinha de meia, Lembro-me perguntar à minha mãe que praia seria aquela   “longue beach”, escrito numa pequena placa junto à marina . Minha mãe olhou para mim como se disse-se : esta minha fi...

Nós........talgia – Nós e alguém que faz parte de Nós

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  Normalmente, não gostam de nostalgia, eu pessoalmente, gosto, pois recordo algo que me tocou outrora. Tenho pensado muito nos meus avós,   primeira linha ou linha primeira que   criam memórias que o coração guarda para eternidade.   Nessa altura de jovem esbelta, percorria as ruas de Lagos e sentia muita liberdade ao percorrê-las a pé ou de bicicleta. Ruas limpas de casas caiadas de branco com janelas debruadas a amarelo ou azul e com grandes açoteias. Lembro-me dos dias de verão, intermináveis, nesse tempo, em que tudo vinha longe e de esperar pela manhã madrugadora para ir à doca ao peixe. Atravessava a pequena cidade, de canastra na mão, senhora da minha meninice e do recado que a minha avó Maria me mandava fazer. Muita sabedoria ao falar. Quando chegava ao meu destino dizia Bom dia, vim buscar o peixe, e uma senhora pequenina com um avental maior do que ela, fazia – me entrar numa embarcação, também pequena, onde tudo rugia, pintada também de branco e azul ...

Escrevo .... ou não escrevo...

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  Não quero escrever, mas escrevo do amor que nasceu e que nos prende que nos arranca sorrisos e nos faz soltar lágrimas... Não quero escrever, mas escrevo daquilo que receamos e do que nos faz corajosos hoje, ontem e nos dias que virão... Não quero escrever, mas escrevo da luz que nos vem da alma da crença de que tudo isso está dentro de nós... Não quero escrever, mas escrevo por tudo isso ou por nada disso talvez, apenas, por tudo o que encontro em mim, dentro de mim, e que me diz quem sou até ao fim.    

VIVER - MEMÓRIAS SOLTAS

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  Enquanto criança e adolescente, passava todos os verões no Barlavento Algarvio, na Meia Praia em Lagos. Os dias de mar, sol e sul eram enormes, tal como a fome que chegava com a hora de voltar para casa, ao anoitecer, em que das provisões que a minha mãe tinha preparado já nada restava a não ser o vazio da mala térmica .   Por vezes, era costume levar umas belas fatias de pão algarvio com manteiga corada, de que apenas comia o miolo, renegando as côdeas, que a minha mãe guardava, por me parecer que a sua aparência pouco sedutora teria paladar correspondente, enfim, idiotices da idade.   No entanto, num desses finais de dia, a fome era tanta que, se me tivessem acenado com um dos famosos D.Rodrigos   vendidos na   casa Taquelim,   saía apressadamente   da Meia Praia, eu teria atravessado a correr   a longa praia de areia branca   e fina para o ir buscar. Como não se vislumbrava que tal acontecesse, e eu ainda não queria ir para casa, não ti...